Relato sobre o incidente em Naufragados

Inicialmente há uma breve descrição dos fatos, seguida por relatos dos participantes.

Nos dias 16, 17 e 18 de março de 2018, um grupo de cinco amigos embarcou em seus caiaques oceânicos para uma jornada entre a praia de Armação da Piedade (Governador Celso Ramos) e a praia da Pinheira (Palhoça), no litoral de Santa Catarina.

Essa remada havia sido planejada para ser realizada aproximadamente seis meses antes, mas foi postergada pela previsão climática desfavorável na época.

Nos dias 16 e 17 a remada transcorreu sem maiores incidentes, na região abrigada das baías norte e sul da ilha de Santa Catarina. Ao final do dia 17, os amigos acamparam na praia de Naufragados, no extremo sul da referida ilha.

O grupo de remadores era constituído por:

  • Carlos: relatou estar em boas condições físicas e já haver remado em condições de vento semelhantes nos dez meses de experiência com o caiaque atual – vestia bermuda de neoprene, botinha de neoprene, blusa sintética com proteção solar e chapéu de expedição – caiaque Eclipse modelo Nanook com leme, colete, faca, strobo, apito, saia, remo reserva, cabo de resgate, bomba de esgotamento, flutuador de remo, telefone celular à prova d’água, gps, spot;
  • Leonardo Esch: relatou estar bem fisicamente e em condições de remar no ambiente apresentado – vestia camiseta sintética com proteção solar, bermuda sintética, botinhas de neoprene – caiaque Netuno modelo Netuno 530 com bolina (skeg), colete, faca, apito, saia, remo reserva, cabo de resgate, bomba de esgotamento, flutuador de remo, telefone celular em embalagem estanque, gps, spot;
  • Luis Antônio “Xiru” Sander: relatou estar com bom condicionamento, tranquilidade para remar nos dias anteriores, sentiu-se à vontade no caiaque com relação a equilíbrio – vestia boné com proteção solar, bermuda de banho e camiseta de manga longa de secagem rápida e proteção solar – caiaque Netuno modelo Apache 440, colete, faca, apito, saia, remo reserva, bomba de esgotamento, flutuador de remo, telefone celular à prova d’água à mão;
  • Marcio Pereira: relatou estar tranquilo diante das condições, bem fisicamente, talvez com algum cansaço acumulado pelas remadas dos dias anteriores – vestia boné de expedição, bermuda de banho, camiseta de lycra com mangas compridas e botinhas de neoprene – caiaque Eclipse modelo Nanook com bolina (skeg), colete, faca, apito, saia, remo reserva, cabo de resgate, bomba de esgotamento, flutuador de remo;
  • Reginaldo Padilha: relatou estar preocupado com a saída para o mar (zona de surf) e com as condições da remada (particularmente com o vento) – vestia calça térmica e short de neoprene, camiseta de mangas compridas e proteção solar – caiaque Nelo modelo Navigator com leme, colete, faca, apito, saia, telefone celular em embalagem estanque.

O dia 18 de março amanheceu com tempo bom e a manhã progrediu ensolarada e ventosa. Vento do quadrante norte, variando de noroeste a nordeste conforme os contornos do terreno. Swell no local entrando de sudeste com altura estimada em torno de um metro.

Não houve reunião prévia para definir estratégia de remada. Leonardo comentou que seria interessante ultrapassar a zona de surf e seguir próximo à costa para a direita, na direção do farol, para então cruzar a passagem estreita entre o farol e a ilha de Araçatuba, seguir em direção à passagem entre a ponta do Papagaio e a ilha do Papagaio, onde haveria abrigo do vento e do swell. De lá poderiam reavaliar a situação e decidir como seguir até a praia da Pinheira, ponto final da remada.

Reginaldo relatou que estava preocupado com as ondas da zona de surf e com o vento. Foi o primeiro a entrar no caiaque, auxiliado por Marcio. Leonardo ajudou Xiru, Carlos e Marcio e foi o último a passar pela zona de surf.

Formaram-se dois grupos: Reginaldo, Xiru e Carlos estavam mais afastados da costa, sofrendo portanto mais efeito do vento. Marcio e Leonardo estavam logo após a zona de surf. Ambos os grupos seguiram inicialmente e por pouco tempo na direção da ilha de Araçatuba.

Carlos capotou seu caiaque. Xiru permaneceu nas proximidades de Carlos e Reginaldo começou a se afastar na direção da praia da Pinheira. Leonardo remou na direção de Carlos e Marcio seguiu remando na direção da ilha de Araçatuba. Leonardo realizou resgate. Nesse momento os remadores estavam divididos em três grupos: Reginaldo sozinho rumando em direção à praia da Pinheira, Carlos, Xiru e Leonardo rumando em direção à ponta do Papagaio e Marcio rumando em direção à ilha do Papagaio. Carlos capotou novamente e foi resgatado por Leonardo. O grupo continuou com o plano de remar em direção à passagem entre a ponta do Papagaio e a ilha do Papagaio. Marcio chegou à ilha do Papagaio e por telefone chamou ajuda dos bombeiros. Reginaldo chegou à praia da Pinheira. Carlos capotou pela terceira vez e foi resgatado por Leonardo. O grupo optou por contornar a ilha do Papagaio. Marcio conseguiu contatar Reginaldo e solicitou aos bombeiros o cancelamento do resgate. Carlos capotou pela quarta vez. Xiru permaneceu com Carlos e Leonardo contornou a ilha do Papagaio para chamar ajuda. Surgiu um helicóptero dos bombeiros, seguindo na direção de Carlos e Xiru. Leonardo contornou a ilha do Papagaio e encontrou Marcio remando na direção da praia da Pinheira. Ambos aportaram na ilha do Papagaio. Um resgatista saltou do helicóptero para permanecer com Carlos. O helicóptero retornou para a praia. O helicóptero retornou para a posição de Carlos, acompanhado por dois jet skis. Xiru contornou a ilha do Papagaio, encontrando-se com Marcio e Leonardo. Os jet skis resgataram Carlos e rebocaram seu caiaque. Carlos, Xiru, Marcio e Leonardo reuniram-se na península arenosa da ponta do Papagaio.

Após pausa, o grupo de quatro remadores começou a remar bem próximo da praia, com o objetivo de margear a baía da Pinheira em direção à praia da Pinheira. Após um pequeno deslocamento, Carlos e Xiru iniciaram caminhada pela praia, puxando seus caiaques. Leonardo e Marcio atravessaram a baía remando até chegarem na praia da Pinheira. Leonardo mediu a velocidade do vento com anemômetro na praia da Pinheira (por aproximadamente dois minutos), observando vento do quadrante norte de 18 a 20 nós. Reginaldo foi a pé ao encontro dos dois. Leonardo e Reginaldo retornaram ao ponto de saída da remada (Governador Celso Ramos) para buscar os carros. O grupo se reuniu novamente após o deslocamento dos carros, na praia da Pinheira.


Relato do Reginaldo:

Partimos de uma remada fantástica para momentos desesperadores entre os dias 16,17 e 18 de Maio de 2018 eu, Reginaldo Fernandes Padilha com mais quatro amigos Carlos, Marcio, Leonardo e Xiru, partimos de Governador Celso Ramos, (lugar em que Paul McCartney gostaria de voltar segundo ele), partimos mais precisamente a Praia Armação da Piedade, dali foram dois dias até a entrada de Naufragados, onde muitos quilômetros já haviam sido registrados pelo obturador da máquina do Xiru até então cores e sorrisos vibrantes de uma remanda que estava sendo lendária.

Depois de remar em mar calmo e abrigado era hora de passar pelo canal de Naufragados, conversa entre o grupo, decisão tomada de passarmos no “liquidificador”. Defini nada menos que alucinante, lugar paradisíaco aliado a Adrenalina, não poderia ser melhor.

Foto do liquidificador, por Xiru Sander.

Antes de aportar ainda consegui pegar uma onda no Mar pela primeira vez, antes só em Lagoas. Montamos acampamentos, eu e Marcio montamos as nossas barracas em uma parte mais alta que o Carlos, Leo e Xíru, mesmo assim a menos de 10m. Jantamos muito bem. Conversamos mais um pouco e fui deitar.

Porta da barraca.
Foto das barracas.

As 22:06 de sábado dia 24, olhei a previsão em um aplicativo que havia acertado todos os outros dias com precisão que não deixava dúvida, enviei uma mensagem de voz para nosso grupo relatando a direção e velocidade do vento, me preocupava com aquele canal uma vez que o vento estaria soprando com forte intensidade de Norte e tínhamos o Venturi que seria ao meu ver, infernal! Deixei claro da ideia de partirmos cedo.

Acordei domingo as 06:00, fomos levantando aos poucos tomando café desmontando acampamentos, comecei a observar o vento de minuto a minuto e olhar as ondas que cada vez mais aumentavam de tamanho que o tempo da série era menor. Chamei o Marcio falei que não estava nada afim de entrar na água, pois haveria vento forte, nunca antes havia entrado no mar daquele jeito, ele tentou me tranquilizar, eu disse “cara eu sei que dá mas pra que sofrer se falta só 4Km, aí eu vou capotar o barco sem necessidade”, mesmo assim disse para ficar tranquilo que iria me colocar lá dentro com segurança (passar arrebentação), conheço o Marcio há bastante tempo e confio muito nele por isso ele era meu “biruta” da condição, como prático voo livre há quase 15 anos, continuei batendo na tecla “vamos sair desta área protegida e será complicado em função do vento, rajadas que poderiam chegar a mais de 40km/h”, fiz a seguinte analogia:

– Consegue ver aquele morro ali, apontei para um morro com um desnível de 120 metros, imagina que você voa há três anos dele, e num belo dia eu te levo para aquele, apontava um com mais de 500 metros de desnível, e lá no cume você me fala:
– Reginaldo, não consigo ver o pouso lá embaixo, não sei como está o vento.
– E eu te respondo:
– Marcio, fica tranquilo que vou te decolar e tu vai chegar lá sem problemas.
– Como você sentiria se, Marcio?

Me respondeu que não muito confortável. Neste momento chamei o Leonardo que é um cara que rema há muito mais tempo que eu, inclusive juntamente com o Marcio me instruíram no curso básico de resgate pois são credenciados pela ACA, ou seja eu estava com quem entende da coisa já havia remado por muito mais horas em oceano que eu, eu respeito a experiência deles, Leonardo teve o mesmo feedback que o do Marcio, vamos te colocar ali logo após arrebentação, tu espera e vamos remando pela costa, pensei o que vamos passar na frente do liquidificador com vento N, tá louco, sentei na areia peguei o celular olhei a previsão de vento e ondas, ondas entrando de SE vento N, tudo errado ao meu ver, falei novamente da minha preocupação, “vamos que vai dar tudo certo”, antes de levantar confesso que pensei em tomar a decisão de ficar na areia, mas fui decidi que iria!

Meu barco da Marca Nelo, modelo Navigator provará ser um ótimo companheiro, celular com bateria full, na proa um saco estanque com carregador solar alimentando um power bank, tinha água doce no barco, comida, neste dia resolvi colocar uma calça térmica e um short de neoprene, camiseta de mangas compridas proteção UV ft50, tubo de protetor solar fácil acesso, colete de ótima qualidade, apito no colete, uma faca especial para ser usada no colete, ou seja eu tinha em que me agarrar caso ocorresse algum problema.

Marcio e Leo me ajudaram a entrar na água passei arrebentação bem na boa, fiquei esperando, mesmo protegido o vento em empurrava mar a dentro, remei pra trás, logo vi o Xiru, que gritei “xiru chega aí, cara você já remou nestas condições eu não estou curtindo, o Xiru disse ser tranquilo o único problema seriam as correntes” Ah tá além do vento, ondução tinha que cuidar as correntes? Imagina agora eu neste momento chegou o Carlos, falei Carlos vamos remar em direção ao morro da fortaleza, pensei tá fácil de capotar aí gritei “vou remar pra lá e foda se”, rumei para Fortaleza, quase que o vento me capota, quando olhei pra trás pra ver o Carlos estava capotado, que droga, Marcio, Leonardo no inside, Xiru perto deles eu ali quase capotando sendo jogado mar a dentro, Carlos capotado, olhei pro Carlos pedi desculpas por não saber poder ajudar pois certamente capotaria também, ele me disse Tudo bem, obrigado Carlos por me responder “tudo bem”, me senti impotente ao extremo ao ver meu companheiro agarrado ao barco sem poder ajudar, tentei mais uma vez rumar à fortaleza, eu iria capotar certamente, usei o apito e o vento me afastava cada vez mais tentei remar pra traz, nada pensei dois capotados agora não vai ser legal, racionalizei ao extremo, respirei fundo e comecei a coletar os dados, para processar minha estratégia de sobrevivência e não entrar em pânico de forma alguma. Sempre que podemos descemos as corredeiras em Três Coroas, já desci o Rio Maquiné com Leo e Marcio, mais de uma vez, então escorar a intumescência, fluído Reginaldo foco e trabalhe! Dizia para mim, ok estou conseguindo andar sem remar a sem medo de capotar só “escorando o remo”, não irei gastar energia agora, se eu capotar não iriei tentar voltar a remar, abri o bolso do colete onde estava o celular no saco estanque que permite o seu uso na água, pesei se o barco virar irei me agarrar na linha de vida segurarei o remo e ficarei como surfista em uma prancha enviarei minha localização e pedirei socorro, isso aí uma coisa eu defini, vou viver! Isso tudo foi muito rápido me afastava cada vez mais do destino combinado a Praia de cima na Pinheira, o vento me empurrava o tempo todo, a rajada vinha a cada 40 segundos, e a onda estava me sacudindo muito, Navigator me ajudará muito, mesmo carregado o barco que eu vestia era parte de mim, “conversamos” o tempo todo e uma ajudava ao outro, parabéns Nelo por ter produzido este barco! Tudo que fala no site sobre o barco é verdade!. E lá vamos nós calor nos olhos, boca seca, adrenalina a mil!! Nem a paria eu conseguia ver por alguns momentos, olhar pra trás era quase pedir para capotar, foco nos fluídos, eu passei a escorar a onda em dois momentos distintos hora pra não pegar a rajada, num segundo momento rumando a praia, eu estava indo bem, quando saí totalmente da sombra do morro do farol, aí o vento ficou, muito forte, aí quase bateu o pavor, lembrei dê tudo o que falei antes de partir, mas o momento era outro, estava indo relativamente bem andando a mais de 10Km/h, quando via uma listra com espuma, algas e pedaços de madeira, parecia um rio, era uma corrente vindo de NO, sinistro!, remei ao lado da corrente por um tempo até coletar os dados novamente, ondas, vento, tempo + corrente, na baixa do vento vou rumar a praia e atravessar com energia se eu ver que vou capotar escoro a onda e se capotar plano B, fui eu me tornando cada vez mais credo em algo que não podia ver, antes de baixar o vento gritei muito alto “Marciooooo, Leonardo” era ilusão eu estava sozinho, pensei em muitas coisa antes de atravessar a corrente, toda hora vinha o carinha da minha cadelinha a Cindy na minha mente, eu estava com saudades dela, senti isso na manhã e ali no barco, era a hora baixou o vento coloquei meu plano em ação, nem bem passei a corrente o vento soprou forte quase capotei, passou água por sobre a saia, olhei a corrente estava longe, o rumo para pinheira estava fixo, fui surfando de boa e quando dava remava, consegui ver os banhistas e diferenciar as cores de um guarda sol! Cheguei! não capotei meus 4km virariam 11km de sufoco, cheguei em mandei uma mensagem as 11:02 ao grupo, depois de um tempinho o vi que o Marcio havia me mandado uma mensagem, respondi que estava bem. Já estava tomando uma coca cola quando um senhor me falou : “olha um Helicóptero ta sobre o mar,será que é pro teus amigo?”, aí mandei uma mensagem e o Marcio me confirmou. , mesmo perto o só consegui me juntar ao Marcio e Leo 3 horas depois, Carlos e Xiru só fui ver as 19:00. Ufa deu tudo certo.


Relato do Marcio:

Naquele domingo, acordei as 6 da manhã e logo pensei, como seria aquele dia de remada, eu não podia imaginar que seria a remada mais difícil da minha vida em todos os sentidos, as previsões eram de vento nordeste de 14km/h as 6 da manhã e as 9 da manhã já estaria 29km/h, previsão essa lembrada pelo Reginaldo na noite anterior pouco antes de nos recolhermos para as barracas, Reginaldo ainda sugeriu que seria bom se começássemos a remada mais cedo que nos dois ultimos dias, que foi as 9 horas da manhã, ele sugeriu por volta de 8 horas, agora entendo que não demos a devida importância para a sugestão do Reginaldo. O dia amanheceu e estava lindo, as 6 da manhã o vento ainda estava bem fraco, o pessoal foi acordando aos poucos, todos ainda estavam bastante cansados pois já tinhamos remado bastante nos ultimos dois dias, como teríamos o dia todo para percorrer apenas 5 ou 6 km ninguém estava com pressa, tomamos nosso café, fizemos nossas ultimas fotos e vídeos e começamos a desmontar o acampamento, guardar as tralhas nos caiaques, e nos prepararmos para entrarmos na água, não lembro exatamente mas acho que estávamos todos prontos as 9:30 da manhã, o vento já estava bem mais forte neste horário, já pronto sentei ao lado do Reginaldo na areia da praia e pude perceber sua preocupação, ele demonstrou sua preocupação quanto as condições do mar, as ondas que quebravam na praia e o vento, perfeitamente normal pra quem não tem praticado nestas condições, comentei que o ajudaria a entrar e que a passagem pela ondas de 0,5 à 0,7 mts não seriam grande problema, Carlos em algum momento também demonstrou desconforto com as condições do mar, Xiru parecia estar tranquilo como sempre, Leonardo, remador experiente, estava preparado, e num momento até comentou que o vento poderia capotar alguém, deveríamos ficar atentos, eu estava tranquilo, já tinha remado bastante nestas condições embora na região de Naufragados apenas uma vez, acho que subestimei as condições do tempo e do mar, eu deveria ter dado mais importância para a preocupação do Reginaldo e do Carlos, eu deveria na verdade ter tido voz ativa e proposto uma outra alternativa que não fosse ir até a Pinheira remando, assim como estava no planejamento, talvez ter pago um barqueiro para levar os remadores e rebocar seus caiaques até a Pinheira, ou até mesmo ficar na praia até que as condições estivessem melhores, isso seria ruim pois tinhamos de fazer uma longa viajem de volta pra casa naquele dia, e todos tinham trabalho na segunda feira, mas isso não importa, o que eu não poderia éra ter colocado o grupo em risco, não me sinto culpado, estas decisões ainda são algo que preciso trabalhar em mim, e depois deste dia certamente ficarei mais atento, eu também acho que faltou uma boa conversa com todos do grupo para discutirmos o melhor rumo que deveríamos tomar quando iniciassemos a remada, conversamos sobre isso na noite anterior apenas eu Leonardo e o Reginaldo, Leonardo sugeriu que seguíssemos em direção a ilha do forte e depois remaríamos direto para o estreito canal protegido, entre a ponta do Papagaio e a ilha do Papagaio, eu e Reginaldo concordamos, esse éra mesmo o caminho mais curto e menos arriscado, me parece que isso não foi passado para o Carlos nem para o Xiru, falhei neste ponto também. Todos prontos para entrar na água, ajudei o Reginaldo a entrar no mar e a passagem dele pelas ondas foi bem tranquila, não lembrei ele que seria importante aproar seu caiaque de frente para o vento e esperar logo atrás das ondas até que todos estivessem na água, ele entrou e remou um pouco mais que o necessário para dentro do mar, o vento colaborou para isso, Leonardo ajudou o Xiru a entrar e depois ajudou o Carlos, logo depois eu entrei, logo que entrei aproei meu caiaque na direção do vento e esperei que o Leonardo entrasse, nesse curto tempo percebi que Reginaldo, Carlos e Xiru estavam muito para dentro do mar, Leonardo entrou e ainda me perguntou com tom de preocupação, porque eles tinham entrado tanto, apontamos nossos caiaques para a direção da ilha do forte e todos iniciamos a remada, eu e Leonardo próximos da costa da ilha onde estavamos, ali estava mais protegidos do vento, Reginaldo, Carlos e Xiru também remando na mesma direção só que bem mais para dentro do mar, fiquei preocupado pois estávamos muito afastados, sem comunicação verbal mas eu ainda podia visualizar eles, logo no início da remada tive a impressão de ver um caiaque capotado e ainda comentei com o Leonardo, e num momento seguinte olhei novamente e vi todos remando, e até pensei que o capotado tivesse feito o rolamento, continuei remando e de repente vi Leonardo mudando o rumo e remando em direção a eles que já estavam pouco atrás de nós mas ainda bastante afastados, parei de remar e vi que Carlos estava capotado, nesse momento percebi que Reginaldo estava ainda mais afastado do restante do grupo, vi que Leonardo iniciou o resgate do Carlos e minha preocupação passou a ser o Reginaldo, cada vez que eu olhava ele estava mais longe, mas eu ainda tinha ele na minha vista e o acompanhava na remada em direção a entrada da baía da Pinheira, neste momento eu já estava bem próximo a ilha do forte, a remada estava bem difícil, o vento que já devia estar soprando a uns 25km/h e com rajadas de mais de 30km/h junto com a corrente típica naquele local deixavam a remada muito difícil, eu estava tenso pois meus parceiros estavam todos separados naquela região bastante perigosa, tive a oportunidade de olhar para traz e não pude ver o Leonardo, nem o Carlos e nem o Xiru, e neste momento tambem não vi mais o Reginaldo, quase capotei pois remava e tentava visualizar alguém, passei neste momento por um grupo de golfinhos e não pude curtir aquele momento, eu precisava me concentrar na remada pra poder passar a distância entre a ilha do forte e a ilha do Papagaio, eu já estava pensando mil coisas, será que o Reginaldo capotou, será que Carlos, Leonardo e Xiru estão bem, pensei em remar para ver se encontrava o Reginaldo, mas refleti e pensei que assim eu poderia colocarmos todos em risco e desisti de remar até ele, minha maior preocupação continuava sendo o Reginaldo, pensei em tudo o que ele falou momentos antes na praia, da sua preocupação com o vento, na sugestão dele em iniciarmos a remada mais cedo, entendi nesse momento que a decisão de entrar no mar naquele horário e com o grupo naquela condição não foi acertada, eu ainda remava e tentava visualisar alguém mas nao os via mais, pensei o pior, perguntei pra mim mesmo, porque uma remada perfeita nos ultimos dois dias poderia terminar assim, fiquei desesperado por dentro mas sabia que tinha de me controlar e me concentrar na remada, tomar alguma atitude para salvar meus parceiros, remei forte em direção a praia da Ilha do Papagaio pensando em chegar lá e chamar por socorro, eu sabia que lá tinha um resort e lá alguém poderia me ajudar, eu tinha os números do grupamento de salvamento dos bombeiros, eu já estava entrando no canal entre a ilha do Papagaio e a ponta, eu já estava em um local relativamente seguro, aportando na praia da ilha corri em direção a um funcionário que estava próximo e disse que eu precisava de ajuda, eu tinha quatro amigos que estavam no mar de caiaque e pelo menos um deles me preocupava mais pois ele estava muito afastado dos demais e em alto mar, o rapaz me orientou que eu fosse até a recepção do resort, fui até lá e falei para a senhora que lá estava que eu precisava de socorro, pedi que fizesse a ligação para os bombeiros, não liguei do meu celular pois meu telefone estava dentro do caiaque e eu não tinha certeza de onde estava, eu não podia perder tempo, ela prontamente fez a ligação e me passou o telefone, falei para o atendente que éramos 5 remadores de caiaque oceanico e que 4 deles estavam na região de naufragados, talvez capotados e a deriva no mar, ele me fez algumas perguntas quanto a condição do mar e do vento e me disse que estaria mandando um helicóptero, desligado a ligação perguntei para a mesma senhora se havia um local na ilha que eu pudesse vizualizar o mar de modo que eu pudesse ver meu parceiros, ela me indicou uma trilha, eu corri subindo muitos degraus, acho que foram uns 4 ou 5 longos minutos subindo a trilha, nunca corri tanto, chegando lá em cima pude visualizar toda a região, eu não via ninguém, não desisti de procurar, é bem difícil visualizar alguma coisa naquela imensidão de mar aberto, procurei pelo caiaque laranja do Reginaldo e não vi nada, procurei bastante ate que pude ver bem longe três caiaques que imaginei ser Leonardo, Carlos e Xiru, peguei meu celular e tirei uma foto, e aproximando a foto pude ver que alguém estava na água, e o resgate estava sendo feito, pois os caiaques estavam juntos, nesse momento lembrei de mandar uma mensagem pelo whatsapp do Reginaldo, eu tinha poucas esperanças de ele responder pois imaginava que ele ainda estivesse na água, e para minha surpresa em seguida ele respondeu dizendo que já estava na praia da Pinheira, foi um alívio pra mim, afinal minha preocupação maior era ele, Reginaldo estava remando muto afastado do grupo e sozinho, a preocupação agora passava a ser os outros três amigos, fiquei observando por um tempo o resgate do Carlos e percebi que por um momento estava tudo certo, Carlos, Xiru e Leonardo já remavam em direção a ilha e já estavam relativamente perto, pensei que não precisaríamos mais da ajuda do helicóptero e liguei do meu celular para o grupo de salvamentos dos bombeiros para informar que tudo estava resolvido, não seria bom mobilizar um helicóptero sem nescessidade, alguém poderia precisar de socorro em outro lugar, informei então ao atendente e este me disse que o helicóptero já devia estar chegando, foi neste momento pude ver o helicóptero dos bombeiros sobrevoando a região, Carlos ainda capotaria o caiaque mais uma vez e a presença do helicóptero ali naquele momento foi muito importante, desci a trilha correndo entrei no meu caiaque e sai remando, não sei porque fiz isso, deveria ter ficado ali, fui contornando a ilha em direção a Pinheira, neste momento vi o Leonardo vindo, remando, e de longe fiz um sinal batendo com a mão na cabeça, perguntando se estava tudo bem, sinal usado na canoagem, quando ele fez um sinal negativo e me chamou para aportar na iha, fui até o Leonardo e ele comentou que Carlos tinha capotado quatro vezes e que na última ele já não tinha forças pra subir no caiaque, estava exausto, Leonardo também estava exausto e tinha deixado Carlos e Xiru para pedir ajuda, Leonardo muito preocupado perguntou sobre o Reginaldo, eu disse que ele estava bem e a salvo na praia, nesse momento chegava remando até nós o Xiru, e logo após passava o Carlos levado por um jetski que tambem rebocava o seu caiaque, indo na direção do canto da praia, na ponta do Papagaio, terminava ali um dos piores momentos que passei na vida, nunca pensei que isso pudesse acontecer comigo embora já soubesse que essas coisas podem acontecer com quem rema, uma grande lição eu aprendi, ter passado por isso vai me transformar como remador, e já transformou, que bom que tudo terminou bem e poderemos através desse acontecimento compartilhar o acontecido e alertar a todos que uma falha ou uma sucessão de falhas podem ser fatais.


Relato do Xiru:

Antes do relato em si, tem um ponto a esclarecer: eu tava sem saída de aúdio no meu celular. Na noite de sábado pra domingo o Reginaldo mandou áudio falando sobre a previsão de vento forte pra domingo, a partir das 9h, se não me engano.

A impressão pro domingo era de uma remada curta e bem leve. Então parecia que a ideia de todos era iniciar o domingo sem pressa, curtir a praia um tempo. Lembro até de ter comentado com Leo e Marcio de fazermos fotos deles surfando.

Ok, começa o domingo. Todos num ritmo bem tranquilo, não ouvi ninguém comentar sobre ventos perigosos e sobre partir logo. Não que achoq ue alguém devesse comentar. Apenas to mostrando que eu não tava ainda ali por dentro de previsão.

Nos últimos instantes antes de partirmos, todos estavam sentados bem na beira do mar, ja com caiaques, e eu ainda tava terminando de empacotar a câmera na caixa-estanque. imaginei que estivessem acertando sobre o trajeto. Eu devia ter perguntado…

Partimos, já com swell alto e muito vento, me parece que nordeste. Eu não estava preocupado nem com vento nem com o swell. Mas sim com as correntezas, que eu não sabia onde e pra onde estavam.

Reginaldo partiu primeiro, depois eu e depois Carlos. Reginaldo fou bem além da arrebentação, talvez uns 100 metros. Eu não fui tanto, mas daí o Reginaldo me chamou até ele. Como ele estava na na conversa com o grupo antes, entendi que era por ali que se iria. Fui até ele e logo chegou o Carlos.

Nessa altura, vi que o Leo e o Marcio, que embarcaram por último estavam, após a arrebentação, já indo mais pra direita, eaparentemente em direção a Ilha do Forte. Eu, Carlos e Reginaldo começamos a remar na direção deles.

Foi quando ouvi o Carlos me chamar. Tinha capotado. Avisei o Reginaldo e apitei pra que Marcio e Leo soubessem e pudessem ajudar. Não ouviram, dai acenei com o remo e eles viram. Leo veio e Marcio seguiu. Eu não fiquei cuidando, porque fui indo em direção ao Carlos, mas achei que o Reginaldo tinha ido em direção ao Márcio e que os dois seguiram juntos. E fiquei achando isso até o momento, mais tarde, que o Leo falou de estar preocupado com Reginaldo.

Leo chegou, desvirou o caiaque do Carlos, tirando água, e ajudou ele a voltar pro caiaque. Leo me chamou pra ajudar desde o começo, mas o vento era tanto que eu não conseguia quase virar na direção deles. Cheguei junto e ajudei só no final do processo.

Carlos no Nanook, celular e gps perdidos. Seguimos. Primeiro mirando pra pra praia de naufragados e depois pra Ilha do Forte. Foi quando o carlos capotou a segunda vez. Gritei pro Leo, que conseguiu chegar antes de mim no Carlos, apesar de eu estar mais perto. Muita dificuldade pra manobrar contra o vento.

Resgate feito, seguimos. Agora em direção a Ponta do Papagaio. A idea era passar entre a Ponta e a Ilha do Papagaio, e chegar em área protegida do vento e das ondas.

Então teve a terceira capotada. Terceiro resgate, e todos já bastante cansados. Esses pouco tempo desde a saída da praia (40 minutos? 1h?) ja tinham me cansado mais que todo o dia anterior. Comentei com o Leo que não daria pra passar entre o morro e a ilha do Papagaio, porque estava entrando onda lá. Mas logo me dei conta que, durante o terceiro resgate, andamos tanto com a correnteza (ou vento? ou ambos?) que já havíamos passado a parte que íamos atravessar (morro / ilha). Então só restava ir até depois da ilha e dai sim dobrar à direita e se proteger do vento.

Terceiro resgate feito, seguimos. Percebi que o Carlos estava bambo em cima do caiaque. Balançava rapido dum lado pro outro. Uns poucos metros teve o quarto capotamento. Leo tentou vir mas logo me gritou que buscaria ajuda. Fui até o Carlos e fiquei perto dele. O Leo ainda estava à vista, e nisso apareceu um helicoptero. Achei coicidência, porque o Leo ainda não tinha chamado o socorro.

Acenei com o sinal de socorro com o remo, eles viram. Vi que Leo e Carlos também acenaram. ufa, tava tudo tranquilo ali.

O helicópero veio vindo, e fui me afastanto, pra avitar o forte vento das hélices (não duvido que esse vento me capotaria também) e segui no mesmo rumo que o Leo fez. Contornar por fora a Ilha do Papagaio e entrar na proteção da baía. Logo que entrei na area mais protegida Leo e Marcio me acenaram. Estavam na ilha. Fui até eles e eles comentaram que estavam com muito medo que algo tivesse acontecido ao Reginaldo, mas que agora já sabiam que ele também estava bem, na Pinheira.

Dali, seguimos até a beira da praia da Ponta do Papagaio, onde encontramos com o carlos. Local que o resgate deixou ele.

Descansamos e partimos rimo à Pinheira. Costeando, pra irmos protegido do vento e swell. Mas logo arrebentou o cabo do leme do Carlos. E ele disse que queria ir pra praia, que sem leme e o mar agitado (mesmo na área protegida), e somando todo cansaço físico e psicológico, ele não conseguia mais remar.

Acertamos então que eu ficaria com ele e Márcio e Leo seguiriam até a Pinheira. Eu e Carlos iríamos caminhando até lá, pela beira, puxando os caiaques. Sinceramente, não lembro se foi ideia minha, do Márcio ou do Leo.

Mas… depois vi que não foi uma ideia boa. naquele ponto ali o mar ainda estava tranquilo na beira, parecia da daria pra ir. Apenas uma caminhada longa. Mas depois de uns 200 metros as ondas começaram a ser bem mais fortes e de direções diversas na beira. Com muita frequencia também havia forte repuxo/retorno da maré, pra dentro do mar. Então precisava a todo todo momento muita força e cuidado pra controlar os caiaques. No caminho, paramos 3 ou 4 vezes pra descansar. Algumas vezes quase queimei a mão com a corda. Algumas ondas luxavam o caiaque pra beira afundando muito a popa (proa de frente pras ondas), e quando a onda passava da popa, o caiaque saltava forte pra frente, quase me acertando. Algumas vezes chegou menos de um palmo do meu rosto. Enfim: puxar caiaque assim, em beira mar tão agitada, somente em últimio caso.

Fim da longa (psicologicamente loooonga) caminhada pela beira, há uns 500 metros de onde estava o Marcio nos esperando (Leo e Reginaldo foram a Gosvernador Celso Ramos, de carona com a irmã do Leo, buscar os carros). Dai não tinha como seguir. Muitos banhistas pela beira, meu cabo de puxar o caiaque pela proa arrebentado (eu já estava puxando com um a corda presa à linha de vida), o cabo que o Carlos usava era preso ao colete dele e também arrebentou… e não aguentávamos mais.

Paramos, avisei pelo grupo do whats, e mandei foto do local e a localização pra gps. E ali esperamos o Leo.

Quando Leo chegou, colocamos as coisas no carro e no reboque, e nos encontramos com Marcio e Reginaldo. Todo o grupo junto finalmente. Organizamos as tralhas. Márcio e Reginaldo partiram, e eu, Carlos e Leo ainda tomamos um café com a mãe do Leo.
Depois do café, Partimos.

Um PS: sou péssimo em chutar distâncias, ainda mais no mar.


Relato do Leonardo:

Este relato foi feito informalmente por Whatsapp no grupo da remada, logo em seguida ao acontecido, respondendo a um questionamento do amigo Pablo (que foi impossibilitado, mas gostaria de ter participado da remada). Optei por não editá-lo, para manter a veracidade com relação aos sentimentos e informações do momento.

Marcio ajudou Reginaldo a entrar no caiaque na praia. Reginaldo saiu. Eu ajudei Xiru a entrar no caiaque, na praia, depois ajudei Carlos, depois ajudei Marcio, depois saí. A ideia era seguir costeando logo atrás da arrebentação, evitando o vento e ondas de vento mais para dentro. O vento soprava da terra para o mar.

Quando entrei e encontrei o Marcio, ficamos nos questionando por que Reginaldo, Xiru e Carlos estavam tããão longe, lá no outside.

Seguimos costeando conforme a ideia. Ao menos essa era minha ideia, sugestão que dei quando estávamos na praia. Costear em direção ao farol, cruzar em direção à fortaleza (ilhota) e seguir entre a ponta e a ilha do Papagaio, onde teríamos o primeiro abrigo do vento. 

Remamos um pouco e o Marcio me falou – “alguém virou”. Estavam longe, parei de remar pra olhar. Marcio disse – acho que conseguiu rolar, tá direito de novo.

O Marcio seguiu se afastando, eu fiquei olhando, vi alguém agitando o remo em claro sinal de “ajuda”. Virei o caiaque e fui remando com velocidade pra lá.

Nesse ponto não vi mais o Marcio. Olhando para o grupo dos três, vi que alguém remava mais pra dentro ainda, se afastando. Pelo remo de pá preta vi que era o Reginaldo. Quando estava talvez uns 20, 30 metros do capotado, vi algo preto na água. Catei. Era uma tampa de caiaque.

Cheguei no capotado, era o Carlos. Fizemos o procedimento de resgate, colocamos a tampa, caiaque quase sem água, Carlos voltou pro caiaque. Tô resumindo bem, pois a condição era tal que o Xiru tinha dificuldade em se juntar a nós pra ajudar a estabilizar. Nisso nem sinal mais do Reginaldo, tinha sumido de vista. Sem chance de qualquer contato, nem visual. Fiquei muito preocupado com o Reginaldo.

Conseguimos manter o grupo – Carlos, Xiru e eu. Pedi pra remarmos em direção à praia, contra o vento, com a ideia de o Carlos se estabilizar, sentir o caiaque, ganhar confiança pra remar, talvez encurtar um pouco de espaço pra ter menos efeito de ondas e vento.
Aos poucos pedi pra mudarmos de rumo. Pro farol, pra fortaleza, um pouco mais pra esquerda… A ideia era ir ganhado distância em direção à passagem entre a ponta e a ilha do Papagaio. Não lutar contra o vento, mas tentar usar um pouco.

Nisso Carlos virou pela segunda vez.

Eu estava um pouquinho na frente, tentando dar o rumo e talvez transmitir um pouco de segurança. Só virar contra o vento e se aproximar do Carlos capotado já se tornava “pesado”. Fizemos novo resgate, Xiru ajudando a estabilizar. Tira água, volta pro caiaque, fecha a saia rápido pra não entrar muita água, respira… Calma!

Depois da segunda capotada, mantivemos o plano, seguir na direção entre a ponta e a ilha, lá estaria abrigado.

Tudo parecia estar melhor, vento pelas costas, nós seguindo na direção certa. Pensei – agora vai!!! Um pouco depois, ouço Xiru chamando “Lééééo” e Carlos pedindo socorro. Desta vez a coisa estava bem mais tensa. Não estávamos muito longe das pedras. O vento ia nos jogar contra elas, as ondas iam terminar o serviço. Repete-se o processo, Xiru tentando se aproximar pra estabilizar, tira a água, o caiaque parecia cada vez mais e mais pesado, o swell batendo no costão e voltando (rebote) deixava tudo mais confuso, comecei a enjoar e tentava manter o foco. Carlos subiu no caiaque e não conseguiu entrar, capotou de novo. Cheguei a pensar em fazer um reboque pra tentar nos livrar das pedras, mas achei que a condição estaria muito ruim. Rebocar caiaque cheio, mais nadador, Xiru provavelmente não conseguiria ajudar, se separássemos o Carlos do caiaque seria bem complicado juntar de novo. Novo resgate então, tira a água, Carlos sobe, fecha a saia rápido…

Nisso Xiru enxerga ondas quebrando e sugere contornarmos a ilha “por fora”. Não me agradou muito a ideia, ficaríamos mais tempo no vento, sem garantia de conseguir contornar a ponta da ilha. Mas já estávamos passando do ponto de entrada entre a ilha e a ponta.
Perguntei ao Carlos qual direção ficaria menos pior pra remar, ele disse “de costas pro vento”.

Eu disse “vamos lá – Carlos, não vira mais!!!” (como se dependesse da vontade dele…)
Até fui meio ríspido nesse “pedido”, mas a tensão estava grande e a energia terminando.
Tudo seguiu bem por um tempinho, a coisa estava indo, faltava pouco… O que eu temia se concretizou, ouvir o Xiru me chamando de novo… Quando tentava girar o caiaque entrou mais um rajadão, senti o caiaque muito pesado, começaria a perder o controle. Vendo o Carlos na água pedindo ajuda, o Xiru por perto, tomei uma decisão que me custou bastante. Gritei contra o vento “vou buscar ajuda”!

Na dúvida, gritei de novo e vi o ok do Xiru, me toquei com velocidade costeando a ilha, quando começava a contornar e buscar refúgio do vento, ouvi e vi o helicóptero…

Pouco depois vi o Marcio remando saindo do canal entre a ponta e a ilha, seguindo na direção da Pinheira. Chamei, ele pareceu não entender, chamei de novo, pedindo pra ele vir na minha direção. Quando pude, perguntei “e o Reginaldo?” Quando ouvi “ele tá em terra, tá bem” meio que bateu um cansaço, caiu a adrenalina, não sei dizer bem, eu ia comentar “achei que o Reginaldo estava morto” e as palavras não saíam, meio que veio um soluço…

Breve análise: passadas semanas do incidente e portanto mantendo um distanciamento temporal e emocional do incidente, fica relativamente fácil compreender as causas que levaram ao desfecho. A tomada de decisões, julgamento e o manejo de risco são fundamentais em um deslocamento em grupo. Nosso grupo não adotou medidas nesse sentido, falhando em avaliar e interpretar a percepção de risco e em definir uma estratégia adotada pelo grupo enquanto grupo. Evidentemente cada participante adotou a postura que percebeu mais adequada ao momento. De minha parte, reconheço um grande erro, fundamental, que seria tomar frente e sugerir uma efetiva análise e decisão em grupo, o que poderia evitar várias situações potencialmente graves. Em ocasiões em que não sou “formalmente” líder de um grupo, tenho a tendência a ser menos participativo no que se refere à liderança, manejo de grupo e tomada de decisões, talvez por um sentimento de não querer justamente assumir uma liderança que não me foi atribuída. É algo que preciso trabalhar para futuramente ser mais ativo em grupo.


Relato do Carlos:

A previsão na véspera era de vento forte a partir das 9h. O vento acabou se confirmando, era daqueles que sentimos a areia bater nas pernas. No entanto, não conseguimos ficar prontos antes das 10h.

Todos na praia, saíram na ordem: Reginaldo, Xiru, eu, Márcio e por fim o Leo. Fui até onde Reginaldo e o Xiru estavam para ficarmos juntos. Até eu alcançá-los o vento tinha nos levou para mais longe da costa que o planejado. O vento estava mais forte que na praia.

Apontamos a proa para a Fortaleza e seguimos com o vento lateral. Por causa do vento eu tinha que ficar com o corpo inclinado todo o tempo, o que a cada rajada tinha que fazer um apoio lateral.

Interessante comentar que eu já tinha pego vento semelhante na Lagoa dos Patos em Janeiro, quando fiquei 4 dias sozinho com o mesmo caiaque. Naquela situação era pior porque a crista quebrava (carneirinho) e batiam no caiaque, mas passei bem, porque o vento era na diagonal e não de lado.

De repente fui surpreendido por uma rajada que me derrubou antes que pudesse fazer o apoio, então capotei. Foi a primeira capotada com o caiaque atual, que tenho há uns 10 meses. Antes desta, talvez fizesse mais de dois anos da última. Me senti frustrado.

Avisei o Xiru e o Reginaldo. O Xiru avisou o Leo, que estava mais perto. O Reginaldo seguiu em frente porque estava com dificuldades também. O Xiru ficou comigo, que estava com um caiaque bem mais estável. Imaginei que o Márcio tinha ido atrás do Reginaldo.

O Léo chegou, virou o caiaque para tirar a água e deu apoio para meu embarque. Enquanto eu colocava a saia entrou um pouco de água, tipo um ou dois dedos. Seguimos em frente. O Léo foi indicando o melhor caminho, seguido por mim e o Xiru. Avançamos bem, mas estava com dificuldade para remar, pois tinha que ficar apoiando toda hora por conta do vento e isto era um pouco desgastante.

Capotei de novo e repetimos a operação. Eu comecei a ficar mais tenso e especialmente cansado, pois não conseguia avançar. Estava entrando mais água no cockpit, pela saia, do que o ideal, e isto complicava a estabilidade.

Mais uma capotagem e um resgate. Fiquei pensando: O que estava acontecendo comigo?

Capotei mais uma vez. Tanto o Léo como o Xiru tinham dificuldades de manobrar por conta do vento e ondas. Notei que eles estavam cansados também. O Léo avisou que ia pedir ajuda, remando em direção a Pinheira. O Xiru ficou comigo.

Logo em seguida vimos o helicóptero dos bombeiros, que entraram em contato para ver como eu estava. Eu expliquei que estava bem, porém cansado e não conseguia me manter no caiaque.

Então veio um jetski de um particular, depois mais outro. Eu peguei carona no jetski e rebocamos o caiaque até a praia. O helicóptero dos bombeiros nos acompanhou por todo o trajeto.

Depois do ocorrido fiquei sabendo que o Márcio, que tinha parado num ponto elevado na ilha e chamou os bombeiros.

Observações adicionais do Carlos:

Colete com: faca de emergência (NSR Pilot), luz normal ativada por água (desligada).

Nos bolsos do colete: apito (alta rendimento), luz com pisca-pisca (com SOS em morse), lanche de emergência, lanche normal, protetor solar compacto, manta de emergência no bolso traseiro (pouco acessível).

No caiaque, acessível: paddle float, bomba de esgotamento, cabo de resgate 15m flutuante, GPS com mapa em alta resolução carregado (BirdEye), celular a prova d’agua com mapa offline em alta resolução, rastreador SPOT. Pelo menos um amigo e um familiar monitorando.

Observação: Tirei o GPS do seu suporte no deck para dentro do porta luvas, para ficar mais seguro. O celular, mesmo a prova d’agua, tirei do bolso do colete e pus no porta luvas também. A tampa do porta luvas veda muito bem e precisa de força para abrir. Por ironia, após o primeiro capotamento estava sem a tampa. Consequentemente tudo dentro dele se perdeu. Não sei como aconteceu, pois, o Leo achou a tampa com a cordinha, mas sem o mosquetãozinho. Provavelmente arranquei sem notar quando virei ou desvirei o caiaque.

No caiaque, acessível de fora do cockpit: kit de reparo e manutenção do caiaque, kit de primeiros-socorros, roupas reserva, comida, material de acamps, etc.

Vestia: bermuda de neoprene, blusa de matéria sintético de manga comprida, chapéu com cobertura na nuca, óculos de sol flutuante, botinha de neoprene.

Condicionamento: estava me sentido bem, mesmo após dois dias ficando 6 horas na água remando. Nas semanas anteriores estava remando uma ou duas vezes por semana, por uma ou duas horas. Tinha dormido muito bem todas as noites. Estava bem alimentado e hidratado.

Condições técnicas: fiz o treinamento ACA 2 e 3 há três anos atrás. O ACA 4 há dois anos.
Participei de 3 ou 4 eventos em piscina para treino de rolamento, mas ainda não consigo fazer o rolamento. Tenho remado de maneira relativamente constante nos últimos anos (algo tipo 4 vezes por mês). Estava relativamente confortável no caiaque nos dois dias anteriores, porém, não estava confortável quando o vento era mais intenso (≥ 25 km/h). No dia anterior rompeu um cabo do leme. Com vento forte, sem leme (e sem skeg) tive muita dificuldade de manter o caiaque em curso até o conserto.

Condições psicológicas:
– Antes de entrar na água: estava preocupado com as condições do mar, o swell estava alto e o vento forte. Tinha receio (naturalmente) de algum incidente. Lembrei a todos para andarmos juntos.
– Na água: passei bem pela rebentação e me sentia confiante. O vento quase tinha me derrubado várias vezes, tinha que remar “ligado” pois tinha que fazer apoio lateral a toda hora. Além disto, tinha que andar com o corpo inclinado para o lado para compensar o vento. Quando ele dava uma parada eu levava “susto” pois tinha que fazer um apoio lateral. Já tinha pegado este tipo de condição em janeiro, remando sozinho. Então acreditava que se eu não deixasse de fazer apoio lateral a tempo iria ir bem.
– Depois de capotar: senti uma grande frustração porque era a primeira vez que capotava com este caiaque, e fazia muito tempo que não capotava. Depois de capotar novamente este sentimento aumentou a ponto de duvidar da minha capacidade de me manter sobre o caiaque. Eu estava me sentindo cada vez mais cansado por conta de subir no caiaque e me manter. Estava claro para mim que os meus reflexos tinham diminuído com este desgaste. Não sentia nenhum tipo de apreensão que atrapalhasse minhas decisões, mas sim com a “moral” baixa. Avaliei que o pior cenário seria ter que ir para umas das ilhas, bem próximas. Neste caso abandonaria o caiaque (perda material) e subiria nas pedras, mas não deveria me machucar muito. Então sob este aspecto sentia com os riscos sob controle.


Algumas imagens ilustrando as condições pouco antes da saída de Naufragados: