Texto: O Rio da Areia

A palavra tupi-guarani Ibicuí significa, literalmente, “farinha de terra” (yby = terra + cuí = farinha), ou seja, areia. Uma vez que cuí também significa “fino”, referindo-se à granulação de um material, ibicui também poderia ser traduzida como “terra fina”, o que dá quase no mesmo. E de fato, o Ibicuí é um rio de areia, ele é o Araguaia do Rio Grande do Sul! São praias e mais praias, praticamente uma a cada curva, ao longo de 290 km de curso total até a foz, no rio Uruguai.

MEANDROS DO IBICUÍ

O Ibicuí, todavia, é mais longo do que isso. Seu curso natural, subindo pelo curso do Ibicuí-mirim (e assim considerando o Santa Maria como um afluente de margem esquerda do Ibicuí/Ibicuí-Mirim), nos leva até sua nascente mais remota na Serra de São Martinho, próximo à cidade de Santa Maria, perfazendo 450 km.

Mapa Ibicui Brasil

O Ibicuí é maior afluente de margem esquerda do rio Uruguai, com uma vazão anual média entre 900 e 1000 m3/s (a terceira maior do RS). Trata-se de um rio de planície, apresentando um desnível total de apenas 22 m desde a junção do Ibicuí-Mirim com o Santa Maria até o Rio Uruguai. Sua bacia abrange 30 municípios e pertence inteiramente ao Rio Grande do Sul, drenando uma área aproximada de 36.000 km² (excluindo-se a sub-bacia do Santa Maria). Além de seus dois formadores, seus principais afluentes são os rios Toropi, Jaguari (ambos de margem direita) e Ibirapuitã (de margem esquerda). Além desses, cerca de 55 arroios deságuam no Ibicuí. Seu curso superior, da junção do Ibicuí-mirim com o Santa Maria até a cidade de Manoel Viana, se caracteriza por um leito maior com seção transversal larga, ou um leito menor com margens baixas e fundo arenoso. O curso inferior, de Manoel Viana até a foz, apresenta um leito menor de margens mais elevadas e fundo formado por sedimentos mais grosseiros (o que não é usual em rios). Na parte final desse trecho, já próximo à foz, ele volta a apresentar margens baixas.

Na bacia do Ibicuí encontramos vegetação característica de estepe, de savana estépica e de savana. Além dessas, existem também vegetação de floresta estacional decidual e áreas de tensão ecológica devido especialmente às lavouras de arroz e à pecuária.

Seu ecossistema é considerado delicado porque o rio corre sobre um leito que foi parte de um enorme páleo-deserto de dunas, o deserto de Botucatu (nome da cidade paulista onde ocorre um grande afloramento de arenito). Entre 145 milhões de anos atrás (final do período Jurássico) e 135 milhões de anos atrás (começo do Cretáceo), as dunas avermelhadas este páleo-deserto cobriam uma extensão de 1.600.000 km2, indo desde o sul de Minas Gerais até o Uruguai, e da Bolívia ao que hoje é o oeste da Namíbia (a América do Sul e a África estavam, então, ainda ligadas). Com um clima seco rigoroso, as condições eram então pouco propícias à vida, daí a relativa falta de fósseis de animais da época. Essa imensidão de areia deu origem ao arenito botucatu que reveste muitas calçadas de Porto Alegre. O deserto desapareceu quando a África e a América do Sul se separaram. Durante a separação, ocorreu um gigantesco derramamento de lava que cobriu este arenito com uma espessa camada de basalto. Nas bordas deste enorme campo de basalto, todavia, a camada derramamento de lava é fina, deteriorando-se com o passar do tempo e revelando, como se verifica no município de Alegrete, afloramentos de areia do antigo deserto. Daí resulta, basicamente, a instabilidade do leito do Ibicuí e a fragilidade de seu ecossistema.

O Ibicuí é considerado um rio relativamente não poluído. Contribui para isso a baixa densidade populacional da região, o reduzido número de cidades e povoados localizadas às margens do rio e a quase ausência de atividade industrial. Apesar disso, existem ameaças à saúde do rio. Há o uso desordenado de agrotóxicos, em lavouras orizícolas, em determinados trechos. O intenso uso de água para a irrigação dessas lavouras, e também pela pecuária, juntamente com a extração de areia, contribuem para modificar constantemente o leito do rio.

O rio outrora foi aproveitado para navegação ativa, agora inteiramente abandonada. Entre os afluentes do rio Uruguai, é o que apresenta maior potencial para navegação. Ele também oferece a possibilidade de ligação com a bacia do Jacuí, o que constituiria uma via navegável a atravessar por inteiro o Rio Grande do Sul de leste a oeste. Mas seria preciso haver dragagem regular do canal, em vista dos valores reduzidos de profundidade mínima durante períodos normais de estiagem, variando de apenas 0,70 m a 1,40 m. Há também o frequente desenvolvimento de bancos de areia no leito menor do rio, em locais de ocorrência de curvas com raios de curvatura pequenos, o que exige larguras mínimas para navegação. Além disso, o Ibicuí apresenta alta mobilidade de seu leito, outro fator negativo para a navegação comercial. Isso é bom ou ruim? Sinceramente, não sei.

Seja como for, o Ibicuí ainda é um lindo rio de areia a cortar o pampa, oferecendo uma profusão de lindas praias e um curso cercado de mata ciliar relativamente bem preservada. Precisa dizer que se trata de um rio excelente para a canoagem de caiaques oceânicos?

 

 

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