Artigo: Fabricando um Remo Groenlandês Ocidental

por Chuck Holst (tradução de Trieste Ricci e Leonardo Esch)

O Remo Groenlandês

O remo groenlandês vem se tornando cada vez mais popular entre o caiaquistas de oceano da América do Norte, da Europa e de outras partes do mundo. Além da associação romântica com as pessoas que ensinaram os europeus a remar em caiaques e a realizar rolamentos, o remo groenlandês de pás delgadas é popular por facilitar o apoio (brace) e o rolamento, e por não ser muito susceptível ao vento. Além disso, por deslizar um pouco no início de cada remada, ele exige menos da musculatura e, dessa forma, em viagens longas de dia inteiro, causa menos fadiga do que os remos de pás grandes de estilo europeu.

Um benefício adicional para os caiaquistas das latitudes boreais é que o remo groenlandês é adaptado para se remar em condições gélidas. Os ombros onde as pás e o loom (o cabo ou haste do remo, onde ele é agarrado normalmente) fazem com um que um loom coberto por gelo seja mais fácil de agarrar, ao mesmo tempo em que as extremidades estreitas das pás, imersas na água enquanto se rema, provêm um local livre de gelo para se agarrar quando se precisa fazer um apoio ou um rolamento.

O remo groenlandês também é popular por ser muito fácil e barato de construir usando ferramentas simples em uma oficina, que é o assunto deste artigo. Trabalhando apenas com ferramentas manuais, é possível fabricar um remo groenlandês por menos de $ 10,00 de gasto com materiais, e menos de 24 horas de trabalho.

 

O que é um Remo Groenlandês?

O remo groenlandês é um remo no estilo tradicionalmente usado pelos inuits da Groenlândia. Ele é caracterizado por pás longas, estreitas e terminadas em ponta, e um loom ou cabo relativamente curto, tipicamente com um quarto, e não mais do que um terço, do comprimento total do remo. Diferentemente dos remos inuits usados ao longo do Estreito Davis, o cabo não é entalhado de qualquer maneira que interfira com a remada deslizante. Os remos groenlandeses tradicionais possuem pontas de osso para protegê-los do gelo marinho, mas fora da Groenlândia, e mesmo nela, as réplicas mais modernas são feitas inteiramente de madeira.

O remo groenlandês é estreito a fim de que a mão possa agarrar a pá próximo à extremidade sem ter de agarrá-la pela ponta, a qual, em um remo tradicional é conectada à pá por uma junta de encaixe e espiga. Assim, a largura extrema de uma pá groenlandesa não deve ser mais larga do que o remador é capaz de agarrar entre a base do polegar e a segunda junta do dedo indicador. Um remo com uma pá larga demais para agarrar não constitui um remo groenlandês porque não pode ser usado como tal.

Figura 1: Remo groenlandês oriental.

 

Figura 2: Remo groenlandês ocidental.

 

Figura 3: Remo para tempestades.
Figura 3: Remo para tempestades.

 

Estilos de Remo Groenlandês

Na Groenlândia existem dois estilos básicos de remo, e muitas variações dos dois. Na costa leste, no distrito de Angmagssalik (ou Ammassilik), a parte de madeira de um remo alarga-se gradualmente desde o cabo até as extremidades das pás (Fig. 1). As bordas destas são feitas de costelas de baleia, cujas extremidades junto ao cabo formam ombros, que determinam as extremidades das pás. As pontas das pás são feitas de osso de mandíbula de baleia, e entalhadas. Geralmente as pontas são feitas um pouco mais largas do que o restante da pá, possivelmente para evitar de a mão deslizar da ponta quando o remo for usado em posição estendida. Entretanto, quando usado em uma remada normal à frente, este estilo de ponta é mais ruidoso do que o estilo groenlandês ocidental de ponta. Este foi o estilo de remo usado pelos membros das Expedições Britânicas de Rota Aérea do Ártico de 1930-33, liderada por Gino Watkins, o qual aprendeu a remar em caiaque com Manasse Mathaeussen, que à época de sua morte, 1989, era o mais habilidoso caiaquista da Groenlândia.

Na costa oeste da Groenlândia, os remos tipicamente possuem um ombro entalhado de madeira onde as pás encontram o cabo, as bordas de osso são geralmente mais curtas e se encaixam mais suavemente no restante das pás (Fig. 2). Todavia, uma vez que houve muita migração entre as costas leste e oeste, especialmente durante o século XX, existem muitos estilos intermediários também. O próprio Manasse Mathaeussen aprendeu a remar na costa leste, mas passou mais tempo de sua carreira de caiaquista na costa oeste.

Um terceiro tipo de remo é chamado de remo de tempestade, uma vez que seu uso principal se dá em ventos fortes. O remo de tempestade parece um remo groenlandês normal, exceto apenas pelo cabo, que do comprimento aproximado de dois punhos, enquanto as pás são de comprimento normal. O comprimento total é aproximadamente a altura do remador. Este remo é usado somente com uma remada totalmente deslizante, enterrando-se a pá inferior profundamente na água, ao mesmo tempo expondo-se pouco da extremidade superior aos ventos. Eu levo o meu como remo reserva sobre meu convés frontal, de onde é fácil retirá-lo e completar um rolamento caso eu venha a perder meu remo groenlandês normal. Uma vez que o remo de tempestade é mais fácil de mover dentro d´água do que o remo normal, muitos o preferem para realizar rolamentos.

 

A História do Remo Groenlandês

Ninguém sabe qual é a antiguidade do remo groenlandês, porém é improvável que ela seja de milhares de anos atrás como às vezes é afirmado. Os ancestrais dos groenlandeses de hoje, que constituíram o que chamamos de cultura Thule, migraram para o leste a partir do Alasca e do norte do Canadá somente mil anos atrás aproximadamente, cerca de a mesma época em que Eric o Vermelho estava se estabelecendo no sudeste da Groenlândia. Uma vez que um estilo diferente de remo, com um cabo mais longo e pás muito curtas em forma de folha vegetal foi usado até recentemente por muitos inuits do oeste da Groenlândia, o remo groenlandês pode ter evoluído após a chegada à Groenlândia da cultura Thule.

Existe uma pista ambígua de que o remo groenlandês tenha idade de algumas centenas de anos. O mais antigo caiaque groenlandês sobrevivente que se conhece, recolhido em 1613, tem sido exibido na Trinity House em Hull, Humberside, Inglaterra, desde o início do século XVII; todavia, o remo que o acompanha é do antigo estilo de pá em forma de folha vegetal. John Brand, que tirou as medidas do caiaque e o documentou em seu Little Kayak Book (N.T. – Pequeno Manual do Caiaque, numa tradução livre), especula que o desenvolvimento do remo groenlandês possa ter sido influenciado pela forma dos grandes remos dos europeus. No entanto, os grandes remos usados com os grandes umiaks, ou barcos abertos, da Groenlândia, possuem pás relativamente largas, diferentemente tanto dos grandes remos europeus quanto dos remos groenlandeses, e eu questiono a possibilidade de que o exemplo europeu tenha influenciado um e não outro.

Minha opinião é que o remo groenlandês e a remada deslizante evoluíram juntos. A forma não adornada e as dimensões do remo tornam fácil o deslizamento do mesmo de um lado para outro entre as mãos e, de fato, os groenlandeses caracteristicamente deslizam qualquer das mãos para fora, sobre uma pá, para equilibrar quando realizam um apoio, um rolamento ou uma remada de varredura.

 

A Remada Deslizante

Na remada deslizante, remo desliza dentro das mãos de um lado para o outro enquanto o caiaquista rema primeiro de um lado e depois do outro. Você poderia chamá-la de a versão groenlandesa do estilo senta-e-troca da corrida de maratona de canoas, exceto pelo fato de que as mãos jamais perdem contato com o remo.

Durante a fase de recuperação da remada, a mão mais alta desliza descendo da parte de baixo da pá superior para o cabo, enquanto a mão mais baixa desliza cerca de seis polegadas sobre a outra pá a fim de se tornar a mão mais alta na remada seguinte. Na remada deslizante completa, usada principalmente com o remo de tempestade, o remador inicia uma remada com uma das mãos próxima ao centro do cabo e a outra na pá superior com afastamento (entre elas) equivalente à largura dos ombros.Durante a fase de recuperação da remada, a mão mais alta desliza descendo da parte de baixo da pá superior para o cabo, enquanto a mão mais baixa desliza cerca de seis polegadas sobre a outra pá a fim de se tornar a mão mais alta na remada seguinte.

No que eu chamo de remada deslizante curta, o remador inicia com a mão mais baixa agarrando o cabo na raiz da pá inferior, e a mão mais elevada segurando a pá superior a cerca de seis polegadas do cabo. Durante a fase de recuperação, a mão mais elevada desliza para baixo desde a pá superior até o cabo, enquanto a mão mais baixa desliza cerca de seis polegadas sobre a outra pá a fim de tornar-se a mão mais alta. Esta remada foi inicialmente praticada no distrito de Angmagssalik da Groenlândia, e talvez também em outros distritos.  No filme Palos Brudegaerd (O Casamento de Palo), filmado por Knud Rasmussen em Angmagssalik em 1932, todos os remadores são vistos usando esta remada.

Em Watkin´s Last Expedition, (A Última Expedição de Watkin), F. Spencer Chapman, que aprendeu a remar em caiaque em Angmagssalik um ano ou dois antes da filmagem de Palos Brudefaerd, diz: “Quando você rema em um caiaque, deve manter o remo passando de um lado para o outro, entre suas mãos, de modo que o máximo possível da pá esteja dentro da água a cada remada.” Estender o remo movendo-o  entre as mãos dessa maneira permite um maior controle e possibilita realizar um apoio mais rápida e facilmente. Desde que o remador esteja acostumado a deslizar o remo, é fácil transformar uma curta extensão de remo em uma maior quando as condições exigem. É por causa da remada deslizante que eu às vezes chamo o remo groenlandês de “remo de comprimento variável”.

 

Fabricando um Remo Groenlandês

Em atualmente seja mais fácil adquirir um remo groenlandês já fabricado do que costumava ser, é muito menos dispendioso e muito mais satisfatório você construir o seu próprio. Uma razão para isso é que o custo dos materiais requeridos para um remo groenlandês é de apenas $ 10 a $ 20, comparado aos $ 120 a $ 220 para um modelo pronto. Outra razão é que você pode personalizar e ajustar o remo às suas dimensões; muito remos prontos possuem cabos longos demais, ou pás de que são largas demais para um remador comum. Uma terceira razão é que muitos remadores vendem como remo groenlandês que não são tão autênticos quanto o que você pode fabricar por sua conta.

Este artigo descreve como esculpir um remo de caiaque groenlandês ocidental a partir de uma peçade madeira com seção transversal dois-por-quatro* (two-by-four). Ele é baseado no artigo de John Heath, “The Do-it-Yourself´s Greenland Paddle” (N.T. – Faça você mesmo um remo groenlandês), do número de inverno da revista Sea Kayaker e em minha própria experiência na construção de remos. Quando você consultar as ilustrações passo-a-passo da Fig. 7, tenha em mente que a coluna da direita mostra como o remo deveria se parecer aproximadamente se você o cortasse pelo centro após cada etapa, enquanto a fila inferior mostra seções do remo terminado.

 

Materiais

Os inuits da Groenlândia fabricavam remos com qualquer coisa que aparecesse na praia. John Heath recomenda usar pinus, pinheiro (fir), abeto (spruce) ou freixo (ash). George Gronseth recomenda o cedro porque é fácil de trabalhar e macio para se tirar lascas. Eu prefiro o cedro por sua leveza, embora ele de fato deteriore mais rapidamente do que outras madeiras. Escolha uma tábua de seção transversal dois-por-quatro com seção transversal de pelo menos 1,5 polegada (1 polegada = 2,54 cm) por 3,5 polegadas, e de 7 a 8 pés de comprimento (1 pé = 30,48 cm). Ela deve estar bem seca e ser bem reta. Peça para polirem a madeira finamente. Se for cedro, o polimento deve ser um grau B (N.T. – acabamento de segunda). Todavia, nem todos os depósitos de madeira contêm madeira de fino acabamento, de modo que você pode precisar revirar entre tábuas com acabamento padrão de construção a fim de encontrar algo utilizável. A maioria das madereiras o deixará fazer isso, se você for razoável. As fibras devem ser finas, retas e mais ou menos paralelas aos lados da tábua. Os nós da madeira, se existirem, devem ser pequenos e poucos. Às vezes se encontra uma tábua longa e suficientemente limpa de seção transversal dois-por-quatro com 12 pés de comprimento quando não se consegue encontrar uma de 8 pés. Esteja preparado para gastar cerca de oito dólares por uma dois-por-quatro de cedro com polimento padrão em sua madereira local, ou o dobro disso por uma tábua de seção dois-por-quatro de cedro, de mesmo tamanho, mas com acabamento de primeira.

 

Ferramentas Necessárias

As instruções seguintes pressupõem que você disponha pelo menos de um serrote manual, e preferencialmente um serra de fita, para cortar fora os pedaços que não interessam. O desenvolvimento da forma pode ser feito com qualquer combinação das seguintes ferramentas: uma faca, uma drawknife (lâmina de raspagem?), uma plaina, uma glosa de metal perfurada (surform-type perforated metal tool) e lixas. Seja o que for que vá usar, tenha certeza de que esteja afiado.

Uma vez que eu não possuo uma serra de fita, eu geralmente corto fora os pedaços de madeira inicialmente com um serrote, depois suavizo os cortes com uma plaina antes de marcar os pedaços adicionais a serem eliminados e de retirar mais madeira. Obtenho a maior parte da forma bruta com uma drawknife (lâmina de raspagem) e uma spokeshave. Para o acabamento fino, eu uso spokeshave, lixa e palha-de-aço grau 0000.

 

Uma Nota sobre a Obtenção da Forma do Remo

A obtenção de uma superfície curva a partir de uma peça retangular de madeira, como uma tábua de seção transversal dois-por-quatro, é realizado através de sucessivas etapas de aproximação da forma final desejada. Usando linhas-guia traçadas sobre a madeira, corte a seção transversal em quatro cantos e quatro lados. Trace então novas linhas-guia sobre o pedaço obtido e corte fora os cantos intermediários, criando assim uma forma de seção transversal com oito cantos e lados. É até esta etapa de aproximação por meio de linhas-guias que a Fig. 7 mostra para você. Depois disso, você estará por conta própria quando for cortar fora os oito cantos, produzindo 16 novos, depois estes 16 para obter 32, e assim por diante.

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Figura 4 – Aproximando-se da forma interior

Durante a obtenção da forma do remo, é bom imaginar que existe uma forma interior, a qual você está tentando obter. As linhas-guias da Fig. 7 foram traçadas de modo a criar facetas, no pedaço de madeira, que tangenciem a forma interior no centro de cada faceta, aproximadamente (Fig. 4). Ao criar novas facetas, tente seguir o mesmo princípio. Não precisa ser rigoroso demais, todavia, uma vez que a forma interior às facetas raramente é simétrica e uniforme. Examine as seções transversais da parte inferior da Fig. 7 e verifique como a forma vai mudando desde o cabo até a ponta da pá, e use o toque e a visão para ajudar a criar uma forma orgânica que flua suavemente pela mão, que lhe pareça e que você sinta que lhe é adequada.

 

Siga as Fibras

Quando for esculpir a madeira, corte sempre a favor das fibras; de outro modo, provavelmente acabará arrancando um pedaço da madeira. Para entender o que eu quis dizer com “cortar a favor das fibras”, veja a Fig. 5. Observe que as fibras da madeira encontram a superfície que está sendo esculpida formando com ela um ângulo agudo. Vista de lado, a superfície e as fibras de madeira que a tocam formam uma série de cunhas, que apontam no sentido em que se deve cortar (linhas grossas na Fig. 5). Se você cortar contra as fibras, como ilustrado na Fig. 6, sua lâmina tenderá a seguir as fibras, penetrando demais na madeira. Neste caso, mesmo que a lâmina não possa entrar muito na madeira por fazer parte de uma plaina ou de uma spoke shave, ela estará mais rasgando do que a cortando o material.

 

Figura 5 – Cortando a favor das fibras.
Figura 5 – Cortando a favor das fibras

 

Figura 6 – Cortando contra as fibras
Figura 6 – Cortando contra as fibras

 

Figura 7 Passos para construção do remo groelandês
Figura 7 – Passos para construção do remo Groenlandês

 

Etapa 1

A primeira etapa na fabricação de um remo groenlandês é determinar suas dimensões, que são baseadas nas próprias dimensões do usuário. Note, porém, que o remo groenlandês tradicional é proporcional ao caiaque groenlandês tradicional. As proporções tradicionais devem funcionar bem para os caiaques modernos de tamanho similar, mas, se você possuir um caiaque largo (acima de 22 polegadas), ou um com convés ou assento mais alto que o normal, talvez seja bom encompridar o remo um pouco mais. Ao ler as descrições seguintes, por favor, refira-se à Etapa 1 da Fig. 7.

Comprimento total (L). Esta medida deve ser igual à envergadura (de braços abertos e paralelos) mais a distância entre cotovelo e pulso. No caso de um remo um pouco mais comprido, que era preferido por alguns groenlandeses para viagens longas, use o comprimento de uma envergadura mais um cúbito (que é a distância entre o cotovelo à ponta dos dedos), ou a altura máxima que o remador pode alcançar com os dedos em gancho, agarrando a extremidade superior do remo posicionado na vertical. No meu caso, ambos os métodos resultam em 85 polegadas no total, embora os comprimentos dos remos usados na Ilha de Baffin chegassem a atingir 110 polegadas.

Note que o método de medir um comprimento agarrando-o pela ponta quando posicionado verticalmente é afetado pelo comprimento das pernas do remador, o que não nada a ver com sua altura quando sentado.

 

Comprimento do cabo (S). Esta medida deve ser aproximadamente igual à largura entre os ombros do remador, ou à distância entre suas mãos quando ele agarra o remo com os cotovelos mantidos contra as costelas e os antebraços na horizontal. Normalmente, os polegares e os dedos indicadores agarram as extremidades do cabo e os três dedos de cada mão agarram as raízes das pás, de modo que sua medição usando o segundo método deve ser feita entre o dedo central de uma mão e o da outra. No meu caso, ambos os métodos resultam em aproximadamente 18 polegadas, embora 20 polegadas pareça ser uma medida bastante comum em remos documentados.

Em caso de dúvida, é preferível escolher a medida menor. Depois, se a experiência revelar que o cabo está curto demais, ele poderá ser encompridado eliminando-se parte das raízes das pás – ou você poderá usar a remada deslizante.

 

Grossura do cabo (T). Na transversal, o cabo deve ser um retângulo arredondado ou uma oval com o eixo mais longo perpendicular ao plano das pás. Faça com que o eixo longo da oval seja igual à espessura (a menor dimensão) da proporção dois-por-dois, o que é cerca de 1½ polegada. A medida T é igual ao comprimento do outro eixo da oval (o eixo mais curto). Heath sugere usar uma medida entre  e 1¼ polegada, embora 1½ polegada pareça ser mais comum entre os remos tradicionais documentados. Em caso de dúvida, use a medida maior, uma vez que você sempre poderá reduzi-la mais tarde. O cabo resultante deve se ajustar no interior da oval formada quando você encosta a ponta do dedo indicador na bola (ball) do polegar (N.T. – Parte inferior da parte extrema do polegar?).

 

Largura das pás (W). Faça um grande C com seu dedo indicador e o polegar. Para usar o remo na posição estendida, a largura máxima das pás não pode ser maior do que aquela que você consegue agarrar confortavelmente entre a segunda junta do dedo indicador e a borda do polegar. No meu caso, isso resulta em cerca de  polegada. Poucas pás autênticas excediam 3 polegadas, e muitas eram as menores do que isso. A largura das pás se reduz para a metade da largura máxima nas raízes das pás.

 

  1. Comece reduzindo o comprimento de sua tábua ao comprimento total (L). Trace linhas-guia perpendiculares entre si abaixo do centro de cada face. Um conjunto de linhas-guia deverá localizar-se a meio caminho entre as extremidades. Trace as linhas através da transversal dois-por-dois a fim de marcar as extremidades do cabo (S).

 

Etapa 2

Refira-se à etapa 2 da Fig. 7. Determine a espessura de ½ polegada das pontas das pás traçando marcas a ¼ de polegada da linha central, nas extremidades das faces estreitas (larguras de 1½ polegada). Trace linhas retas entre essas marcas e as bordas das faces das extremidades do cabo. Serre ao longo dessas linhas para dar uma forma afunilada às pás. Depois, se preferir, suavize os cortes usando uma plaina.

 

Dica 1: Se você for cortar com uma serra de mão, para ajudar a se manter do lado de fora das linhas-guia, corte umas poucas polegadas de um lado, então gire o remo, corte algumas polegadas do outro lado. Alterne os lados a cada corte de algumas polegadas, até que o corte inteiro seja finalizado.

 

Dica 2: Se você for cortar com uma serra de fita, posicione um segundo bloco quadrado sobre a mesa da serra próximo ao dois-por-dois. Enquanto você passando a dois-por-dois sobre a lâmina da serra, usando o bloco como referência, incline-a ligeiramente em direção â lâmina a fim de garantir que o corte fique um pouco fora da linha-guia sobre o lado inferior oculto. Quando tiver terminado o corte, vire a peça e a faça percorrer a lâmina da serra novamente, eliminando quaisquer farpas de madeira remanescentes entre a linha-guia, que se encontra agora no topo, e a borda oposta do corte.

 

Etapa 3

Refira-se agora à etapa 3 da Fig. 7. Você primeiro traçou duas linhas ao longo de cada face a fim de determinar as extremidades do cabo. Para determinar a espessura do cabo, ligue essas linhas traçando duas linhas paralelas à linha central, cada qual a ½ T desta, para determinar a largura das raízes das pás. Faça marquinhas sobre cada face localizadas a uma distância igual a W (a largura das pás) da extremidade, e a ½ W da linha central. Ligue as marquinhas com linhas retas a fim de determinar o afunilamento da pá.

Agora esboce uma curva sobre cada extremidade do remo. (Pode usar um dos desenhos mostrados na última página como gabarito.) Esboce também as formas em S raso dos ombros das pás. No desenho de Heath e em fotografias, eles têm cerca de 1 polegada em linha reta ao longo do eixo do cabo, mas podem ter um comprimento, ao longo da forma em S traçada, de 2 polegadas ou mais. Se você desejar ombros mais suaves.

Posicione deitada a tábua delineada sobre uma das faces largas, e corte ao longo das linhas com uma serra de mão, uma serra tico-tico ou uma serra de fita. É bom suavizar as bordas dos cortes no final, com uma plaina, a fim de facilitar as marcações da etapa seguinte.

 

Etapa 4

Referindo-se à etapa 4 da Fig. 7, marque a tábua como indicado. Sobre as faces estreitas, trace duas linhas retas paralelas e separadas uma da outra por 3/8 de polegada ao longo de dois terços do comprimento das pás, e então, gradualmente, aumente a separação entre as paralelas para 13/16 polegada na raiz das pás Sobre as faces largas, trace linhas-guia como indicado na figura. Trace também linhas paralelas sobre as faces do cabo, como indicado.

Para completar a marcação da tábua, corte em ângulo a fim de remover o material dos cantos entre as linhas. Se você puder fazer isso com precisão com alguma serra elétrica, melhor pra você, mas, uma vez que o chanfrado gira, uma ferramenta de mão como uma draw knife ou mesmo uma lâmina ou faca comum talvez torne a tarefa mais fácil, talvez um pouco mais lentamente. Gastar mais tempo na marcação e no corte do chanfrado ajuda na fabricação de um remo mais simétrico.

 

Etapa 5

Referindo-se à etapa 5 da Fig. 7, apare sucessivamente os cantos cortando fora cada canto novo até que todos eles fiquem arredondados e a forma suavizada como ilustrado nas seções da parte inferior do desenho.  As superfícies frontal e posterior do cabo devem ser completamente arredondadas, mas as superfícies superior e inferior podem ser planas ou ligeiramente curvas. As raízes das pás devem ter seção transversal oval, com a oval perpendicular à seção oval do cabo. As pontas das pás devem ser convexas. Na metade das pás, a seção transversal deve ter uma forma de diamante. Todas devem se ajustar umas às outras suavemente.

 

Etapa 6

Experimento o remo antes de dar um acabamento final ao mesmo. Você pode descobrir, por exemplo, que seria melhor alterar ligeiramente a forma do cabo para ter mais conforto. Além disso, antes da lixada final, você deve molhar o remo para dilatar as fibras. Se você não puder levar o remo para um lago, por exemplo, leve-o consigo para o chuveiro e dê um bom banho nele!

 

Etapa 7

Dar um acabamento final é opcional. Os remos tradicionais eram alisados com facas ou plainas e deixados inacabados. Eu tenho experimentado de tudo, desde nenhum acabamento até resina epóxi não acabada e verniz marítimo. Eu não gosto de acabamentos muito finos porque eles dão um aspecto de plástico, não oferecem proteção adicional significativa contra batidas e são mais difíceis de modificar sua forma quando depois de batidas. Sem acabamento final, a madeira tende a ficar rugosa com o desgaste natural, o que pode ser desconfortável quando se rema com a as mãos nuas, embora seja bom com luvas. Eu geralmente lixo finamente o remo (usando lixa no. 220), aplico óleo de tungue e esfrego suavemente com palha de aço grau 0000 para dar um acabamento sedoso à madeira. Uma vantagem de um acabamento com óleo puro é que é possível apagar irregularidades encharcando-se o remo com água.

 

Dica: Se você usar óleo de tungue puro, adicione um pouco de Japan dryer[1] para diminuir o tempo de secagem.

 

 

Fabricando um Remo de Tempestade

Para fabricar um remo de tempestade, lembre-se de que as pás são de aproximadamente do mesmo tamanho que as do remo comum, mas o comprimento do cabo é de dois punhos ou menos. Para fabricar um remo desses, siga as instruções para o remo comum, mas encurte o comprimento total, L, pela mesma distância em que o comprimento do cabo, S, foi encurtado.

 

Adicionando Pontas de “Osso”

Embora os remos feitos totalmente de madeira sejam suficientemente duráveis para a maioria dos usos ao sul do círculo ártico, os groenlandeses normalmente põem pontas e bordas feitas de osso ou de marfim em seus remos como proteção contra blocos de gelo. Consulte o artigo de John Heath, The Do-It-Yourself´s Greenland Paddle” (revista Sea Kayaker, número de inverno de 1987). Se você desejar imitá-los (e eu sugiro usar um plástico branco em vez de osso), pode comprar o número da edição da revista Sea Kayaker onde ele foi publicado.

 

O Estilo Groenlandês de Remada

Muitos caiaquistas que adquirem ou fabricam um remo groenlandês cometem o erro de tentar usá-lo com um estilo de remada “europeu”. Para máximo aproveitamento, você deve usar um estilo groenlandês de remada com seu remo groenlandês.

Para a remada groenlandesa básica, segure o remo nas raízes das pás como descrito acima. Mantenha-o baixo, quase em seu colo. Os braços devem pender relaxadamente com os cotovelos próximos às costelas. Os antebraços devem ficar aproximadamente em ângulo reto com os braços, permanecendo dobrados durante a remada. Quando efetuar uma remada, gire seu torso no sentido da remada – é dele que você obterá força. Os braços devem oscilar para trás e para frente, e não para fora.

Legenda da última figura: largura de seu remo.

* N. T. – Two-by-four é um jargão muito usados nos EUA para se referir a um pedaço, ou tábua, de madeira com seção transversal com lados que estão em para o outro em uma proporção de aproximadamente 2-por 4. Por exemplo, uma tábua de seção transversal 2 cm x 4 cm. Mas o termo não é exato pois, como podemos ver no texto, um pedaço de madeira com seção de transversal 1,5 polegada x 3,5 polegadas é considerada uma two-by-four. O mesmo comprovei em consultas à internet

[1]Trata-se de um nome genérico dado a qualquer agente químico que apresse a secagem da tinta (ou seja, trata-se de um catalisador). Costuma ser misturado com algum óleo secante como o óleo de linhaça fervido ou resina.

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