Tradução de Artigo: Remada de Inverno

Artigo publicado em inglês na revista eletrônica The Paddler: The Paddler eZine set 2013

 

“Dizem que Deus, quando desenhou o litoral brasileiro, começou no Norte e foi descendo para o Sul. Foi muito generoso, criando lugares paradisíacos com baías, enseadas e ilhas. Quando chegou ao Estado do Rio Grande do Sul, o último, estava cansado e fez uma linha reta…”

Essa é uma anedota contada com regularidade quando analisamos a geografia do Brasil. O litoral de nosso Estado é praticamente uma linha reta, uma única praia com 622 km de extensão com poucas interrupções. Em sua parte Norte a planície litorânea, localizada nas proximidades do paralelo 30 graus Sul, é espremida entre o cordão arenoso do Oceano Atlântico e a serra, que chega a mais de mil metros de altitude. Nessa planície há uma diversidade de mais de quarenta lagoas, abastecidas pela água que vem do alto da serra e muitas delas interligadas por canais, desembocando em um ponto único no oceano.

A ocupação humana ainda concentra-se em cidades nas praias, na orla oceânica, e em algumas cidades da região, de maneira que o entorno das lagoas basicamente constitui-se por propriedades particulares de lazer e fazendas para agricultura e criação de gado.

O clima dessa região Sul do Brasil sofre muita variação, chegando a temperaturas negativas durante as passagens de frentes frias no Inverno e passando dos trinta graus Celsius no calor do Verão.

A canoagem recreativa utilizando caiaques oceânicos está apenas começando no Brasil, com poucos praticantes, algo inexplicável em um país com mais de oito mil quilômetros de litoral e uma infinidade de rios para remar. A oferta de equipamentos reflete essa realidade e ainda é muito limitada.

Nesse contexto é que tivemos a ideia de juntar um grupo de amigos que gostam de remar e procuramos estimular o desenvolvimento dessa atividade tão salutar em contato com a natureza. Se no Inverno as condições são mais desestimulantes para a prática da canoagem, por outro lado os turistas, pescadores, caçadores e lancheiros também ficam em casa, deixando os animais e plantas ficarem mais à vontade e se recuperarem no ambiente natural, estimulando as atividades de contemplação da natureza. Essa é uma das características da Remada de Inverno, que procura estimular a integração entre amigos remadores através de uma atividade cooperativa e colaborativa, sem veículos de apoio – afinal, temos caiaques oceânicos com plena capacidade de carga e autonomia – e sem qualquer caráter competitivo. Não há pagamento de taxas de inscrição nem qualquer vínculo comercial, é essencialmente uma remada de dois dias entre amigos, algo um tanto raro nos eventos envolvendo atividades na natureza.

A Remada de Inverno teve sua primeira edição no ano 2011, a segunda ocorreu em 2012 e a terceira em 2013. Nessas três oportunidades o trajeto essencialmente se manteve entre as cidades de Maquiné e Osório e foi adaptado de acordo com as condições ambientais encontradas. O vento é o principal fator limitante e que orienta as tomadas de decisão sobre o trajeto, já que a região é uma planície exposta onde as lagoas têm baixa profundidade e não sofrem ação de marés. Na primeira edição houve muita chuva nos dias precedentes à remada, de modo que as lagoas estavam cheias e os canais com correnteza e água bem acima do leito normal; o vento oscilou completamente, do quadrante Sul para o quadrante Norte. Na terceira edição esse mesmo vento Sul foi fator decisivo para modificarmos o planejamento inicial.

 

Remada de Inverno 2013

O planejamento inicial da remada previa a saída para a Lagoa do Peixoto, em Osório, passando pelas lagoas da Pinguela, Palmital, Malvas, Canal do João Pedro e acampamento em uma belíssima praia com árvores frondosas na Lagoa dos Quadros. No segundo dia remaríamos pela Lagoa dos Quadros e rio Maquiné.

Reunimo-nos no ponto de partida na cidade de Osório em um dia frio e muito ventoso por conta da passagem de uma frente fria. A velocidade do vento, medida com anemômetro, chegava a 68 km/h nas rajadas. Teríamos várias áreas bastante expostas no trajeto estabelecido, de maneira que partimos para uma segunda opção que contemplasse uma remada mais curta e abrigada do vento. Deslocamo-nos para o Recanto, em Maquiné, onde poderíamos iniciar pelo rio e remar na margem abrigada da Lagoa dos Quadros.

Mesmo remando em águas bem menos expostas ao vento, um caiaque simples e um duplo foram capotados pelo vento na região onde o rio encontra a lagoa, sem maiores consequências. Remamos para uma praia muito bonita com árvores frondosas e um excepcional local para acampamento, montado sob o sol radiante de um belo dia. Os caiaques ainda carregados foram transportados com a cooperação de todos e lentamente a confusão de equipamentos para remar, equipamentos de cozinha, barracas, sacos de dormir e alimentos foi sendo organizada, em clima alegre e descontraído que é característica da Remada de Inverno. Doze caiaques de catorze remadores foram colocados lado a lado, roupas e equipamentos molhados foram colocados para secar ao vento e sol, em um varal coletivo.

Aproveitamos a bela tarde para conversar, trocar ideias sobre caiaques e viagens, alguns descansavam e outros já começavam a se movimentar para coletar galhos secos para uma fogueira. Nas remadas procuramos seguir os princípios de mínimo impacto, levando de volta todo o lixo produzido e inclusive recolhendo o que encontramos pelo caminho. Particularmente nas remadas com acampamento em clima frio a fogueira faz parte como um elemento de agregação, trazendo calor, aconchego e fonte de energia para preparar a janta coletiva. Também faz parte da cultura do homem do campo e por consequência um pouco de nossa própria cultura, mesmo nos dias atuais. O impacto decorrente dessa ação no ambiente ainda é mínimo, considerando que somos poucos praticantes e que são poucas as remadas com essa característica ao longo de um ano. Em muito pouco tempo as marcas da fogueira são completamente apagadas.

O jantar é coletivo, cada pessoa contribui com comida e bebida e o cardápio mais apreciado é churrasco acompanhado por vinho. O céu estrelado e límpido pelo ar frio do Inverno é espetacular, e em 2013 programamos a remada para que ocorresse em noite de lua cheia. A Lua estava na sua menor distância da terra, fenômeno conhecido por Superlua – era possível até ler um livro somente com a luz do luar! Após decisão sobre as atividades para o dia seguinte e divertida confraternização noturna, todos foram para suas barracas descansar.

No dia seguinte o sol foi lentamente colorindo algumas poucas nuvens. O vento forte da véspera desaparecera completamente e a água estava espelhada. Pouco a pouco todos foram saindo de suas barracas e iniciando as atividades para o café da manhã e posteriormente para a desmontagem do acampamento. Mais uma vez a colorida confusão de equipamentos diversos foi sendo organizada e ao final tudo sumiu para dentro dos compartimentos estanques dos caiaques. Nesse dia contamos com a participação de mais um amigo, totabilizando quinze remadores em treze caiaques.

Com água espelhada saímos remando em direção a grandes dunas de areia na margem Leste da Lagoa dos Quadros. Nos pés das dunas desembarcamos, subindo para contemplarmos a bela paisagem litorânea. Enxergávamos a lagoa, agora calma, bem ao longe uma pequena ilha (para onde rumaríamos em seguida) e, recortando o horizonte, a bela serra chegando aos mil metros de altitude.

Retornando aos caiaques, marcamos rumo direto para a ilha rochosa, fazendo uma travessia de nove quilômetros em águas completamente calmas apenas perturbadas por uma leve brisa que transformou a superfície espelhada da água em um tapete líquido. Chegando à ilha, acomodamo-nos sobre as pedras para almoçar.

Durante o almoço o vento retornou, mas em intensidade bem menor do que na véspera. Foi apenas para acrescentar algumas ondas e um pouco de emoção ao deslocamento final, quando retornamos para o rio Maquiné e ao Recanto.

Modificamos a ideia inicial, adaptando-a às condições locais. Foi uma remada curta em extensão, mas rica em camaradagem e confraternização entre amigos oriundos de dez locais diferentes e realizada em uma bela região no Sul do Brasil.

Informações na web: www.leonardoesch.blogspot.com

Texto de Leonardo Esch

Fotografias de Marcio Pereira e Leonardo Esch.

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